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Advento: tempo de preparação e espera



Antes de o Salvador descer a esta terra, o sentimento mais difundido entre os homens era o ódio. Os pagãos odiava os Hebreus, os Hebreus odiavam os imundos pagãos. Os Gregos chamavam bárbaro todo aquele que não fosse de sua nação; os Romanos não reconheciam os direitos senão dos cidadãos de Roma. A guerra e o ódio implacável para os inimigos era uma glória.

Advento! Preparação para a vinda de Jesus; com a chegada de Jesus não houve mas nem Judeus nem Gentios, nem Gregos nem bárbaros, nem rivais nem inimigos, mas todos os homens tornaram-se seus irmãos, co-participantes da sua natureza humana, e por isso todos eles filhos de um Pai único, Deus.

Jesus é, pelo próprio nome, “aquele que slava”. Ninguém é digno de recebê-lo, mas nossa miséria atraiu a misericórdia dele. È preciso abrir os corações para que aconteça o que São João escreveu: “ O Verbo se fez carne e habitou entre nós”.

Tempo de Advento é tempo de espera. Antes de tudo, é preciso ver que somos pobres pecadores e Jesus é a própria santidade. Jesus precisa vir para transformar nossa vida. A entrada de Jesus na vida do homem muda toda a perspectiva de nossa existência. A vida de Maria mudou quando Jesus entrou em sua vida. E a nossa? Enquanto o nosso “eu” continuar orientando nossas atitudes, enquanto nosso coração não se esvaziar, não haverá lugar para Cristo nem para sua graça. Infelizmente o Natal hoje deixou de ser Natal de Cristo porque não há lugar para ele no nosso coração, individualista, egoísta, consumista, do homem moderno.

O profeta Isaías sonhava com o tempo do futuro Messias como sendo tempo de paz e união entre todos os homens: “ Eles fundirão suas espadas para fabricar charruas, e suas lanças, para foices. Não mais levantará a espada nação contra nação.” Caminhemos na luz do Senhor!
Digamos com toda vera de nossa alma: Senhor, preparai nossos corações para receber-vos nesse Natal que se aproxima!

Advento, nova luz, nova perspectiva,  novo dia! Dimensões diferentes, tudo novo, tudo reformado, tudo transformado, tudo revisto, tudo limpo!
Impressiona a todos nós o modo como João Batista respondeu aos seus interlocutores. A sua consciência é um livro aberto, ordenado, edificante. A sua resposta é sincera, clara e de inconfundível humildade e verdade. Eu não sou o Cristo; todavia, preparo-lhe o caminho, vou abrindo as picadas, aterrando vales e nivelando montes. Batizo, sim, mas com água: é o prelúdio do grande Sacramento do Batismo. Não sou nem Elias, nem um profeta, mas apenas uma voz que clama.

Ao contrário disso, um sinal de grande desleixo moral entre nós cristãos é a resistência e às vezes a repugnância a colocar-nos frente ao próprio “eu”. Passar sequer um só minuto em face de nós mesmos parece morrer. E é bem verdade. Morreria essa personalidade fictícia, extravagante, insignificante que fizemos para nós dia a dia, desde o início da vida.

O difícil é conhecer o Natal por dentro. Para “ ver “o Natal é preciso ser criança, ter a visibilidade da fé, da simplicidade, da humildade, uma luz sobrenatural. A grande maioria ainda não viu a luz, nem dos anjos, nem dos pastores, nem a estrela dos magos.  A criança entende o que os “sábios e entendidos” não compreendem.

Advento! Preparação para o Natal. Natal é festa de criança, pois somente quem tem mentalidade de criança pode entendê-la. Natal só pode ser celebrado num ambiente simples, onde o intercâmbio é mais o sorriso do que a palavra erudita. Não “ falamos” com uma criança, mas sorrimos! Por isso, Natal deve ser celebrado com sorriso, com simplicidade, com humildade, com o coração aberto, com a alma pura, com as portas do nosso ser escancaradas para receber Aquele que vem.

Toda luz de Natal é luz interior, luz de vinda da fé, para encontrar numa criança nascida numa humilde e pobre gruta, o Filho de Deus.
O mistério da encarnação não é para se compreender, e sim para meditar profundamente lá no fundo do coração. O profeta Isaias já sonhava com uma época diferente ao escrever que, no reino messiânico, até os animais se entenderiam. Dizia ele:” Lobo e cordeiro habitarão juntos, o leopardo e o cabrito se deitarão lado a lado.”

Infelizmente a humanidade ainda não compreendeu o porquê da vinda de Jesus Cristo. A queixa de Cristo sobre a recusa de suas graças, a não aceitação de seus milagres, encontramos em várias partes dos Evangelhos: “ veio entre os seus, e os seus não receberam! “; “O Filho do Homem não tem lugar para reclinar a cabeça”. Ele continua não sendo recebido por grande parte da humanidade. Nem com sua morte e ressurreição conseguiu quebrar a terrível resistência de corações duros, insensíveis, impenetráveis, resistentes à graça.

Para aceitar Jesus Cristo, não basta ler o Evangelho, mas transformá-lo em vida própria. “ quem crê em mim terá a vida”; isto é quem o aceitar em sua vida, quem se doar a Cristo. Será que faltaram sinais, ou não houve avisos?
A descoberta de Cristo é sempre obra de Deus. Por mais que estudemos, não chegaremos ao âmago da pessoa de Jesus. Não conhecemos Jesus pela filosofia nem pela psicologia. Ele se revela na medida em que nos abrimos para o seu amor e , por isso, se une cada vez mais a nós.

A força dos Santos, não está em sua preparação intelectual, no conhecimento científico; sua força está na aceitação, na escolha de Cristo. “ Tu és o Cristo!” è a mais revolucionária descoberta que o homem pode fazer em sua vida. Descobrir o Cristo e fazer que ele faça sua morada no coração.
Dai-nos fé, Senhor, para que possamos preparar nosso coração neste Advento, e receber-vos com amor nesse Natal que se aproxima.

Dom José Chaves
Bispo Emérito de Uruaçu-GO
Diretor Espiritual da RCC-GO

 

 

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